O que o analista, nunca deve esquecer


Por um instante, silencie sua mente. Faça uma respiração profunda, inalando bastante ar 
pelas narinas e soltando-o lentamente pela boca, como se estivesse enchendo uma bexiga.

Pronto. Agora pense em você, pense na idade que tem hoje e tente lembrar de tudo o que lhe aconteceu nesses anos. Sei que é praticamente impossível, mas tente.

Tenho certeza de que muitas lembranças lhe vieram à cabeça agora, algumas alegres, outras nem tanto, muitas da infância e por aí vai.

No primeiro momento, foi difícil trazer essas imagens de volta, pois elas estavam guardadas há muito tempo em algum lugar da sua mente. Pode ser até que algumas você nem lembrasse mais.

Isso acontece porque vivemos intensamente, dia após dia, e nomeamos isso de várias maneiras: vida vivida, caminhos, ação e reação.

A verdade é que, durante nossa trajetória, nos deparamos com a vida que queremos ter, com a que conseguimos ter, com a que tivemos que ter e com a que nos impuseram ter.

Tudo isso foi marcado por milhares de situações que, de certa maneira, ficaram para trás, mas é esse “para trás” que nos constitui.

Não somente o que queremos que seja, mas também muito do que nos aconteceu e nos marcou, de diferentes formas. Não temos como sair ilesos da vida. De alguma maneira, tudo isso compõe nossas bases: algumas conscientes, mas a grande maioria inconscientes e, ao contrário do que o mundo nos fez acreditar, elas não estão mortas.

Elas fazem parte de nós, e é nessa parte que a psicanálise atua: Nesse grande conglomerado de VIDA, de causas que nos causam efeitos — emocionais, físicos, estruturais, conceituais. Está em nós não só o que escolhemos ser, mas muito do que conseguimos ser, apesar dos pesares.

A psicanálise se propõe a essa pausa no dia a dia, para que o analisando possa respirar e permitir que emerja aquilo que ficou para trás de qualquer jeito, nos fazendo adoecer e sofrer sem que tenhamos consciência disso.

O analista é o profissional que entende que, para isso acontecer, o analisando precisa de um espaço preparado, acolhedor, sem interferências e sem julgamentos, o que chamamos de setting analítico, seja virtual ou presencial.

O analista é a bússola para que essa jornada de autoconhecimento seja feita pelo analisando com um olhar humano, permitindo que tudo possa ser ressignificado. 
Não existe mudança do passado, mas pode haver um novo sentido, positivo, em tudo o que se viveu.
E nessa jornada é essencial que o psicanalista esteja seguro e firme no tripé que sustenta a verdadeira psicanálise:
  • Teoria (estudo aprofundado, de preferência ininterrupto),
  • Análise pessoal (didática e vivência),
  • Supervisão clínica.
E ele, o analista, nunca deve esquecer:

“Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma
humana, seja apenas outra alma humana.” — Carl Gustav Jung


Nelita Facion

Psicanalista Didata em Formação

Academia Tríade da Psicanálise

3 comentários:

  1. É isso ai! Pois sabe-se que o analista, não corrige o passado, mas possibilita que o analisando o reinterprete, abrindo espaço para novas formas de viver aquilo que antes o aprisionava. Parabéns pelo texto.

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  2. Uau! Essencial o que o texto nos trouxe para compreendermos que somos um espaço importante para nossos "analisandos", que a função do psicanalista não é aconselhar, corrigir , mas sustentar esse espaço em que o sujeito possa dizer o que ainda não sabe que sabe. Parabéns!

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  3. Essa conexão é fundamental para o crescimento psicanalítico. Adorei, parabens

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