O que se “aprende" e "ensina" ou se transmite quando não se ensina.
ou se transmite Conteúdos?
A função do didata na psicanálise não se sustenta pela simples transmissão de conteúdos, técnicas ou protocolos. O didata ocupa um lugar que articula, media, dois eixos fundamentais: a Lei que pode ser entendida como o enquadre, os limites simbólicos, a sustentação da falta e o Desejo que é a abertura para que o sujeito possa produzir um saber próprio, não antecipado.
E isso para nós “educadores" pode encantar, mas também desafiar. Pois é entre esses dois pólos, onde o didata vai atuar e "transmitir" algo que não está no plano explícito do ensino, ou seja , sua posição subjetiva diante do saber e da falta que o funda.
Quando o didata não ensina conteúdos, ele "transmite" ainda mais claramente a estrutura que sustenta sua função. É no modo como escuta, no que permite circular, no que barra e no que suporta não saber que se produz a verdadeira transmissão analítica.
A autoridade que emerge aqui não é a do “mestre que sabe”, mas a da autoridade simbólica, que autoriza o outro ao pensamento. É ela que diferencia a ética do ensino psicanalítico de qualquer pedagogia verticalizada ou autoritária.
O didata, portanto, transmite não o que sabe, mas como se relaciona com o saber. Transmite o manejo do limite, a ética da falta, a capacidade de não saturar o espaço com respostas prontas.
Cada gesto é uma pausa, uma recusa de explicação totalizante, uma indicação mínima que aponta para a experiência de que o saber é uma construção singular e de que a formação analítica não se dá por acumulação, mas por implicação e comprometimento.
Assim, entre a Lei que estrutura e o Desejo que movimenta, o didata se torna um operador da transmissão , um mediador da construção. Ele não oferece um conteúdo, oferece um lugar de construção. E é da posição que ocupa e não daquilo que enuncia que nasce o que realmente se aprende e se ensina e se "transmite”.
Denise da Rosa Silveira Souza
Psicanalista Didata em Formação
Academia Tríade da Psicanálise

Dê, você abordou um tema que teve até discussões em plenário e na câmara dos deputados esse ano, muito importante e que a grande maioria das pessoas não conseguem entender. E fez isso de uma forma clara e direta, que é sobre a formação do psicanalista e a regulamentação da profissão. E é exatamennte isso, não tem como um sistema verticalizado adotado pelas Universidades formar um psicanalista. É uma formação complexa fortemente embassada no tripé psicanalítico que foge dos padrões universitários. Parabéns pelo texto.
ResponderExcluirMuito bem!! A essência é essa. O que se transmite, portanto, não é o enunciado, mas a relação com o saber.
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