Depois do dia de Natal!
Após o Natal, emergem reminiscências, experiências passadas e novas vivências que se entrelaçam no campo do desejo.
Lacan já apontava para essa dinâmica ao articular a relação entre o objeto e a repetição. Aquilo que se recebe como presente não se reduz ao objeto em si, mas à pergunta fundamental: esse presente saciou o meu desejo?
Frequentemente, o que se constata é uma fratura entre o que se desejava receber e o que efetivamente foi recebido. É nesse intervalo que o presente pode tornar-se um objeto perdido, capturado pelas expectativas que o antecederam.
Em Lacan, esse registro remete à tentativa incessante de redescobrir o objeto perdido do desejo não um objeto real, mas aquilo que se inscreve como falta estruturante. O presente, nesse sentido, não responde plenamente ao desejo, pois o desejo não se satisfaz; ele se desloca, se repete e se reinscreve em novas formações.
É fundamental reconhecer que há uma relação intrínseca entre desejo e perspectiva implícita do próprio desejar, isto é, entre aquilo que se espera e a forma como o desejo se manifesta nas relações vividas. Trata-se de uma dinâmica marcada pela reciprocidade e, ao mesmo tempo, pela oposição entre o sujeito e o Outro.
O presente, então, passa a ocupar o lugar de um acontecimento simbólico entre ambos: não apenas um objeto trocado, mas um evento que evidencia a falta, o desencontro e a repetição que sustentam o desejo.
É aquilo que se oferece a alguém como gesto de afeto, lembrança, cuidado ou celebração do vínculo. O valor do presente não está somente no objeto, mas na intenção de quem dá e no laço que se reafirma.
O presente não coincide necessariamente com o desejo. Muitas vezes ele:
Tenta responder a uma falta,
Representa algo do Outro (quem oferece),
Revela a distância entre o que se espera receber e o que efetivamente se recebe.
É o sentido simbólico da psicanálise estudado por Lacan.
Então, sempre esperamos o próximo presente!
Psicanalista e Neuropsicanalista
Psicanalista Didata em Formação
Crisney Barbosa
