Psicanálise e o professor: Um inconsciente e muitas manifestações


Psicanálise e o professor: Um inconsciente e muitas manifestações

Falar do mestre, daquele que se dedica ao ensino-aprendizagem, em sala de onde há desafios constantes no processo de ensino. Entretanto, é aquele que aprende a lidar com os novos recursos tecnológicos e com os conflitos que vêm de fora para dentro da escola com experiências na qual os estudantes trazem do mundo externo para o mundo interno da sala de aula. Conforme Freud (1913/1996, p. 135) “O professor exerce uma influência psíquica que ultrapassa o conteúdo de sua matéria; ele atua não só pelo que ensina, mas pelo que é”.


O mestre que enfrentam a labuta diária, que não deixa para depois as provas, os planejamentos de aulas, as reuniões pedagógicas e as metodologias ativas. Profissional que realiza diversas manobras para seduzir e conquistar os estudantes ao conhecimento, para a realidade que há um outro, um outro que precisa, que necessita do desejo de conhecer, desejo este que abrirá novos horizontes.

Há um olhar que se cruza com o do professor — no fundo, no meio ou na frente da sala, um olhar que admira, que cria vínculo com o saber pelo movimento dos olhos do mestre. Assim, o ensino se torna um continente de significados, um espaço simbólico no qual o aluno se firma na confiança daquele que ensina. O professor, ao sustentar o olhar, também aprende. Aprende a reconhecer no aluno o espelho de suas próprias inquietações, o reflexo de um desejo antigo de compreender o mundo.

Conforme Mrech (2003, p. 8), “... o ensino verdadeiro é aquele que consegue despertar uma insistência naqueles que escutam, este desejo de saber que só pode surgir quando eles próprios tomaram a medida de sua ignorância”. É aí que compreendemos que o conhecimento é um processo de comunicação. Um saber que se torna fundamental para a construção do eu, que se faz na sociedade e no processo de interação entre professor e estudante. O ensino, assim, estrutura a linguagem e dá sentido ao aprender e não do espaço para ignorância.

Na psicanálise percebe-se que educação segundo Zimerman (1999, p. 87) “É um ato psicanalítico, pois implica em lidar com o inconsciente do professor e do estudante com suas fantasias, medos e ideais” Há vários inconscientes uns do “sim” outros do “não”, da verdade e outros das mentiras, outro do amor e ódio e na mediação contradições o professor que convive constantemente com a ideia da negação, aceitação, dúvidas, certeza é mesmo assim o saber é do sujeito, e não do mestre. (Lacan 1992 p. 22)

Em sala de aula podemos dizer que há um inconsciente que se mistura, entrelaçam em dúvidas, angústias, ansiedades em que os estudantes e o mestre compartilham o mesmo inconsciente na qual Jung (2000, p. 54). 

“O inconsciente coletivo é a parte da psique que não deriva da experiência pessoal, mas é inata e universal. Ele é formado por conteúdos e modos de comportamento que são os mesmos em toda parte e em todos os indivíduos.” É neste ambiente que o mestre se encontra, um espaço de muitos inconscientes que se manifestam constantemente.

JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Obras Completas, v. 9/1. Petrópolis: Vozes, 2000.

Lacan, J. (1969–1970/1992). O seminário, livro 17: O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.

MERECH, Levy. Psicanálise e educação: novos operadores de leitura. São Paulo: Pioneira 2003.

Zimerman, D. E. (1999). Fundamentos psicanalíticos: Teoria, técnica e clínica. Porto Alegre: Artmed.


Prof. Crisney Barbosa
Psicanalista Didata em formação
Academia Tríade da Psicanálise

13 comentários:

  1. "De forma resumida, é bem isso mesmo. A dinâmica se dá de inconsciente para inconsciente, onde o mestre sempre representa uma figura diferente para cada aluno. Ótimo artigo!"

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    1. Agradeço muito pelo seu comentário! Essa percepção da dinâmica inconsciente entre mestre e aluno é fundamental, cada encontro é singular, e o mestre se torna espelho, enigma ou até sintoma, dependendo do olhar do aluno. Que bom que o artigo provocou essa leitura!

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    2. O inconsciente que fala em seu individual e ao mesmo tempo fala no coletivo

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  2. Valeu pelas observações - a quase 20 anos na educação consigo perceber varias situações do dia a dia que vai ao encontro da psicanálise

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  3. ótimo artigo ,merece uma reflexão sobre ele ,parabéns

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  4. É uma reflexão muito pertinente, atual. Realmente os professores exercem um papel psíquico de extrema relevância. Hoje é uma prioridade ter presente que o aluno muito mais que no século XX, vê o professor como alguém que exercer um função fundamental na sua vida acadêmica e que em muitas situações são os responsáveis por suas escolhas acadêmica. Portanto este artigo se torne relevante e digno de reflexão.

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    1. Olá, esse olhar do professor é fundamental, por outro lado a vários olhares a mesmo tempo para o professor, os olhares dos estudantes

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  5. Muito bom o texto, para nós refletirmos ! Agradeço pelo conhecimento passado.

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  6. Parabéns pelo belo texto! Excelente reflexão psicanalítica.

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  7. No segundo parágrafo você fala da sedução, sedução essa que é como uma promessa , como algo que estar por vir. A conquista, a realização. Quem seríamos nós sem os professores, os tradutores do simbólico?

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