A essência da psicanálise na escuta da criança e do adolescente

 A essência da psicanálise na escuta da criança e do adolescente

A essência da psicanálise, ao nos referirmos à criança e ao adolescente, está em compreender a realidade e o brincar, conceitos fundamentais já abordados por Winnicott. A psicanálise se atualiza constantemente, buscando no inconsciente aquilo que remete à inocência, à falta e ao trauma vivido; ao Édipo esquecido, mas presente na experiência singular de cada sujeito. 

Assim, a elaboração e a ressignificação aparecem como processos pelos quais o inconsciente encontra novas formas de expressão no consciente, permitindo que as vivências infantis e juvenis ganhem novos sentidos.

Falo aqui de Júnior (nome fictício), um caso real vivido na escola onde lecionei. Ele era um aluno que se sentava sempre no fundo da sala, vestia roupas escuras — entre tons de cinza e preto e raramente se relacionava com os colegas. Não participava das atividades propostas, tampouco dos projetos extracurriculares. No entanto, estava presente todos os dias, sem faltar sequer uma vez.

O que mais ouvia dos professores era: “É um ótimo aluno, não incomoda, tira boas notas nas provas.” Essas falas ecoavam dentro de mim. Naquela época, ainda sem formação psicanalítica, eu apenas sentia o desejo de escutá-lo ouvir sua voz, suas inquietações, e o silêncio que falava dentro dele.

Busquei uma aproximação, tentando exercer o papel de mediação, como propõe Vygotsky, ao estar na zona de desenvolvimento proximal. Mas a cada tentativa, o retorno era o silêncio, até que, em uma ocasião, enquanto falava sobre um anime japonês, percebi um brilho diferente em seu olhar. Ele não disse nada, mas seu olhar comunicou muito. Como já apontava Lacan, é pelo olhar do outro e pela palavra — que o sujeito se reconhece.

Aquele momento revelou uma via possível de encontro: a linguagem do anime, do Death Note é muito popular entre os jovens que apreciam animes. No dia seguinte, levei para a sala algumas músicas, entre elas uma da trilha sonora do anime Death Note. Pela primeira vez, ele se levantou e me perguntou:

 “Você assiste esse anime?” Respondi que sim, que já havia visto todas as temporadas.

Foi ali que o vínculo se formou. A partir disso, comecei a levar jogos de RPG para a sala, e ele passou a participar, interagir, brincar. O brincar, como nos ensina Winnicott, é o espaço potencial onde realidade interna e externa se encontram. E foi justamente nesse espaço que Júnior pôde elaborar algo de si pela via do simbólico, do lúdico e do reconhecimento. Como propõe Winnicott (1975), o brincar é uma experiência criativa que pertence ao espaço do viver. E assim que a psicanálise se torna a essência pela escuta.

Professor Crisney Barbosa

Psicanalista Didata em Formação

Academia Tríade da Psicanálise

6 comentários:

  1. Respostas
    1. A escura é o processo que vincula a criança e o professor, analista, o médico, pois são profissões que necessita ouvir apra chegar ao desenvolvimento dessas crianças.

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  2. Este texto nos lembra que escutar uma criança ou adolescente vai muito além de ouvir palavras, é acolher silêncios, gestos e expressões simbólicas. A experiência descrita no texto, revela como o vínculo pode surgir no espaço do brincar, onde o inconsciente encontra caminhos para se expressar. A psicanálise, nesse contexto, se atualiza ao reconhecer que o sujeito se forma na relação, no olhar e na escuta sensível. É um relato importante! Parabéns prof. pelo texto.

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  3. Ótima reflexão. A escuta é realmente muito mais do que ouvir, é estar presente para uma interação real onde só pela aceitação da necessidade do outro que se chega a uma comunicação. Escutar é mesmo estar disposto a estabelecer trocas que só existem quando olhamos mais do que enxergamos - o que a Psicanálise proporciona muito bem . A escuta da criança e do adolescente envolve mais do que palavrões .

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