A, Ética, pura e simplesmente falando, nasceu da necessidade de se organizar o caos comportamental humano e dar uma direção a esse comportamento para que a vida em sociedade fosse possível, ao passo que a Filosofia buscou compreender os valores dessa mesma sociedade.
Quando se fala em Ética sob a ótica da Psicanálise, essa traduz a ambivalência entre a culpa do indivíduo que se vê diante da satisfação do Desejo (e entenda-se por desejo aqui, algo estrutural e inato: uma força inconsciente que busca a satisfação de uma necessidade ou prazer, e está sempre em movimento, intrinsecamente ligado à memória de uma experiência passada de satisfação) e a necessidade de negá-lo diante da não aceitação desse desejo pela sociedade.
A Psicanálise então, propõe ao sujeito, que uma vez tomando consciência desse desejo, seja responsável por ele, no sentido de que compreenda que sempre será alguém que deseja alguma coisa (muitas vezes desejando também o que o outro esperou ou espera dele); que é um ser “desejante” e que uma vez que esse desejo seja atendido, outro surgirá no lugar, por ser o desejo algo que se reinventa, que se move, que muda constantemente e que representa o que Lacan chama de “Falta” (o vazio, o não resolvido dentro de nós).
A Ética do analista expressa-se quando esse se coloca diante do analisando, livre de julgamentos e sem a pretensão de ensinar alguma coisa, apresentando-se como alguém “não detentor das respostas que esse paciente busca”; ao fazer isso, frustra o indivíduo, mas o move em busca dessas respostas, em uma jornada solitária e dolorida; o trilhar essa jornada, o atravessar desse caminho, leva esse sujeito a encontrar as respostas, todas dentro de si, onde estiveram o tempo todo.
Ao final dessa trilha, tendo o indivíduo “se deparado com seu desejo”, é capaz de compreendê-lo, e tomar a consciência de que ele nunca será alguém inteiro, satisfeito, uma vez que o desejo, como dito anteriormente, se recria, se reinventa, se transforma em outro por toda a vida. Diante desse processo o sujeito se vê livre e autônomo: compreende e aceita que foi, é e sempre será alguém “desejando algo” que nem sequer sabe o que é, mas que esse algo não rege mais sua vida e suas escolhas; entende também que muitas vezes será necessário resistir às suas próprias demandas e que não as terá atendidas, por viver em sociedade. Nesse ponto, torna-se um indivíduo ético consigo mesmo e para com o outro. A isso chamamos de Ética do desejo.
“Me torno desejante daquilo que não sei o que é.” (Conceito Lacaniano)
B.R. - Psicanalista Didata em Formação

Nenhum comentário:
Postar um comentário