A ética do desejo e a posição do analista - I

 


A ética, desde o inicio de sua história, sempre esteve se modificando e em movimento. Nasceu vinculada inicialmente à moral, ao dever, às regras que orientavam o convívio em sociedade. À medida que atravessou diferentes campos, passando pela filosofia, religião, ciência e política, foi se moldando 
conforme o olhar, a necessidade e os valores de cada época e cultura. 

O que é ético em uma sociedade pode ser inaceitável em outra, pois cada cultura constrói seus próprios parâmetros do que é aceito, do que é interdito, do que é desejável.

Por outro lado na Psicanálise a ética ganha um contorno singular e diferenciado. Ela não se restringe às normas que regem a prática, com direitos e deveres do analista e do analisando, mas diz respeito à própria posição do analista diante do desejo. 

A ética na Psicanálise é, em primeiro lugar, uma ética do desejo. E por desejo entendemos o que move o sujeito, o que o atravessa, o que o constitui. Cabe ao analista não ocupar o lugar de saber absoluto, de quem sabe o que o outro deve desejar, mas sim o lugar de quem sustenta a escuta para que o analisando possa descobrir o que o move e como isso lhe afeta.

Por isso, a tríade freudiana, teoria, supervisão e análise pessoal, é mais do que uma orientação técnica ao analista, é uma sustentação ética. A teoria firma o saber, a supervisão evoca o lugar do não-saber, e a análise pessoal protege o analista de confundir o que é seu com o que pertence ao outro. A ética da Psicanálise solicita e mesmo exige que o analista suporte o silêncio, o não-saber e o desconforto; que resista à tentação de guiar o caminho e as escolhas do outro, permitindo assim que o analisando se coloque no lugar da responsabilidade por suas decisões e por aquilo que o faz sofrer.

Dessa forma, a ética na Psicanálise não promete cura como esquecimento nem ausência de dor, mas como travessia, como possibilidade de encontrar o lugar do viver bem apesar de sua historia. O analista, sustentando seu lugar do não-desejo, acompanha o analisando ,dando suporte, para que este possa reconhecer, compreender e suportar o seu próprio desejo no caminho de viver melhor, apesar da dor que o habita.

Psicanalista Carla S. A. Moreira

Didata em formação pela Academia Tríade da Psicanálise

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