Para falar de ética na psicanálise é necessário, primeiro, falar sobre a origem e o caminho que a ética percorreu pela história da humanidade.
Platão elevou a ética ao ideal, vinculando o agir correto à verdade das essências, em especial à ideia do Bem. Para ele, a virtude, sabedoria, coragem, temperança e a justiça harmonia da alma são os norteadores de uma vida virtuosa e feliz.
A ética evoluiu, a partir de regras sociais muitas vezes implícitas, para a investigação filosófica que propõe uma reflexão sobre valores que perpassam as regras de uma sociedade. Tais valores implicam pensarmos sobre a moral como a manifestação prática da ética em nossas ações.
Para isso é necessário, também, ter em mente que a moral é a forma que eu ajo de acordo com as normas que a sociedade me impõe; imoral é agir contra as regras impostas pela sociedade; amoral representa o estado infantil, cujas ações desconhecem as regras. Uma determinada ação ou prática que é considerada moral, imoral ou amoral numa sociedade, pode ser completamente vista de forma distinta em outra. Neste sentido, a ética visa justamente a reflexão sobre o que é moral em um lugar e imoral em outro, mas não o respeito ingênuo a essa diferença.
A ética da psicanálise, a ética do desejo, segue os mesmos fundamentos da ética filosófica?
A resposta é: não exatamente. A ética do desejo é um princípio fundamental: o único imperativo ético para o sujeito é “não ceder de seu desejo”. Ou seja, a verdadeira responsabilidade do sujeito é sua verdade inconsciente: o desejo, mesmo que conflituoso, que o constitui.
Esse desejo pode se opor a uma moral de adaptação social e, ainda que assim o seja, o sujeito não deve ocultar, fugir ou resistir ao desejo, pois é ele que o conduzirá à satisfação que busca.
A ética da psicanálise, em sua práxis clínica, é um termo que engloba a aplicação e o posicionamento do analista para que a ética do desejo encontre maneiras que permitam a sua realização.
Se todo sujeito não deveria ceder de seu desejo, como então o analista, sendo também um sujeito, lida com seu próprio desejo?
A ética da psicanálise implica justamente que o analista, por meio da escuta e da interpretação, priorize as formas que permitam o analisando a realizar seus desejos. Isso significa que ao analista cabe, não só, controlar seu desejo, mas também não permitir que ele interfira na elaboração e, possivelmente, na execução dos desejos de seus pacientes. Uma situação que parece ser conflituosa, já que é, justamente, o desejo do analista que permite sustentar a escuta flutuante, lutando muitas vezes contra seu desejo pessoal, de forma que o tratamento entre em operação e, assim, tenha como meta exclusiva o desejo do paciente.
Psicanalista Marcelo Henrique Barbosa
Didata em formação pela Academia Tríade da Psicanálise

Nenhum comentário:
Postar um comentário